Novelos de Silêncio

domingo, 8 de Novembro de 2009







[…] les femmes de l’Ancien Régime, reines des salons et, plus tôt, des ruelles, n’avaient pas songé à franchir votre seuil, et peut-être eussent-elles cru déchoir, en le faisant, de leur souveraineté féminine. Elles inspiraient les écrivains, les régentaient parfois et, fréquemment, ont réussi à faire entrer l’un de leurs protégés dans votre Compagnie, coutume qui, m’assure-t-on, dure jusqu’à nos jours; elles se souciaient fort peu d’être elles-mêmes candidates. On ne peut donc prétendre que dans cette société française si imprégnée d’influences féminines, l’Académie ait été misogyne; elle s’est simplement conformée aux usages qui volontiers plaçaient la femme sur un piédestal, mais ne permettaient pas encore de lui avancer officiellement un fauteuil. […]


Marguerite Yourcenar, Discours de réception à l’Académie française. Diffusion le 22 janvier 1981 (extraits), “Interactualités”
– do CD que acompanha a reedição comemorativa dos trinta anos da colecção L’Imaginaire Feux.




Marguerite Yourcenar





sexta-feira, 6 de Novembro de 2009







Desse tempo em que se permanece criança

durante milhares de anos,

trouxe comigo um cheiro a resina;

trouxe também os juncos vermelhos

que ladeiam a orla do silêncio,

neste quarto, agora habitado pelo vento;

trouxe ainda um olhar húmido

onde os pássaros perpetuam o céu.


Dificilmente esqueço a rua onde encontrei

os teus olhos imensos, fascinados

pelo fulgor secreto das espadas,

a casa onde te contei, de mãos trémulas,

a parábola do pão e do vinho,

dando a cada palavra um rosto novo.


A cidade onde te amei foi decepada

e não posso abolir as sentinelas do medo.

Mas também não posso deixar de te querer

com beijos e relâmpagos,

com sonhos que tropeçam nas paredes

e se alimentam de terror e de alegria,

enquanto o tempo persiste em soluçar.


Que me quereis verdes sombras da lua

na minha cama onde adormece o frio?

Aqui estou, mais alto do que o trigo,

sangrando nas pétalas do dia,

e sem receio de que aos nossos gritos

ainda chamem brisa.



Eugénio de Andrade, “Elegia e Destruição”, in As Palavras Interditas





terça-feira, 3 de Novembro de 2009








Meu coração é máquina de fogo,

luz de magnésio, floresta incendiada.

Combustar-se é o seu desafogo.

Arde por tudo, inflama-se por nada.



António Gedeão, de Máquina de Fogo, in Poesia Completa





segunda-feira, 2 de Novembro de 2009







sábado, 31 de Outubro de 2009







a Eugénio de Andrade

Intensamente te leio e reconheço

o esplendor que me religa

para sempre aos teus olhos, adâmicos

e indemnes à usura

das palavras do mundo. Nessa nudez

celebras a fuga

de um corcel travestido de cinzas

do rito do poema nascido.



Inês Lourenço, “Liturgia”, in Um Quarto Com Cidades Ao Fundo





quarta-feira, 28 de Outubro de 2009








Je suis la terre et l’eau, tu ne me passeras pas à gué, mon ami, mon ami

Je suis le puits et la soif, tu ne me traverseras pas sans péril, mon ami, mon ami

Midi est fait pour crever sur la mer, soleil étale, parole fondue, tu étais si clair, mon ami, mon ami

Tu ne me quitteras pas essuyant l’ombre sur ta face comme un vent fugace, mon ami, mon ami…



Anne Hébert, “Je suis la terre et l’eau”, in Les cent plus beaux poèmes du monde





terça-feira, 27 de Outubro de 2009






Sans savoir pourquoi

j'aime ce monde

où nous venons pour mourir


Natsume Sôseki, Anthologie du poème court japonais




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* Eli Miguel *
** “Oh diz-me quem sou eu / quem és tu?”, António Ramos Rosa, Viagem através duma Nebulosa - - ** "Quem sou eu? Eu só e minha tarde", Ruy Belo, Homem de Palavra[s] - - ** "Eu quem sou? Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com cuidado cheio de carinho - com vontade de lhes dar beijos - os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases - fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste!... Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre orfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia." Bernardo Soares, Livro do Desassossego
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